Interfaces

A experiência é cisão que não separa - o pintor traz seu corpo para olhar o que não é ele, o músico traz seu corpo para ouvir o que ainda não tem som, o escritor traz a volubilidade de seu espírito para cercar aquilo que se diz sem ele -e é indivisão que não identifica - Cézanne não é a Montanha Santa Vitória, Mozart não é a Flauta Mágica, Guimarães Rosa não é Diadorim. A experiência é o ponto máximo de proximidade e de distância, de inerência e diferenciação, de unidade e pluralidade em que o Mesmo se faz Outro no interior de si mesmo.
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A Sobrevivência como Paixão

A satisfação de sobreviver, que é uma espécie de prazer, pode transformar-se numa paixão perigosa e insaciável. Ela cresce em função das oportunidades. Quanto maior o amontoado de mortos em meio aos quais, vivo, ergue-se o sobrevivente; quanto maior a freqüência com que ele experimenta tais amontoados, tanto mais vigorosa e impreterível tornar-se-á sua necessidade deles. As carreiras de heróis e mercenários confirmam que uma espécie de vício tem origem aí, um vício para o qual já não há remédio.

Futuro

Se soubesses mais a respeito do futuro, ainda mais pesado seria o passado.
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Elias Canetti

Primeiro passo

O meu erro foi ter dado o primeiro passo. Um passo que fez o desespero assumir o papel da razão. E, paradoxalmente, a razão deixou de ser a fantasia para se transformar novamente em desespero.

Elucubrações sobre o vazio

em

O espaço é um vazio aberto...

Um sonhador sem sonhos.

em

Eu juro que sonhei. Não consigo me lembrar de nada. Um vazio invadiu meu cérebro. Ou parte dele. Sei lá. Mas tenho certeza que sonhei. Alguns lapsos de imagens começam a surgir. Espere! Estou tentando compôr as imagens.

Um photoshop neuro real. Estou conseguindo. Sim... sim... vejo uma lambreta. Estou sem capacete. Tem alguém comigo. Mas quem? Não consigo ver. Está de capacete. Que merda! Não consigo nem saber quem me acompanhou durante alguns microsegundos no extâse noturno. Sonhar é uma maravilha. Um momento insuperável de prazer.

A Metáfora

Algum dia será escrita a história da metáfora e saberemos a verdade e o erro que estas conjeturas encerram.
-- Jorge Luis Borges, in História da Eternidade

Finge que só faz o bem

Ela jurou que chegaria antes do fim da noite.
Uma luz cruzou sua vida.
E, por segundos ela nada enxergou.
Ela não entendera o que passou.
Uma luz, um raio.
Com a velocidade de uma leoa ferida, encosta na sarjeta.
Deixa seus pertences no carro negro.
Uma carruagem pós moderna que transforma o combustível em poluição.
Ela nega.
Ela finge que só faz o bem.

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