Vida Dupla

Que inferno vivemos!! Manhã de sol intenso por trás das nuvens volumosas de fumaça. Poluição atingindo meus olhos cansados. Bebi a noite toda. Estava deprimido pelas destemperanças deste mundo virtual.

Passei a noite rodando pela Internet. Odeio chats. Não servem para nada. Apenas para uma masturbação mental mal gozada. Vale o passeio. Surfar por páginas de conhecimento antes inalcançavel. A cada cerveja mudava o meu rumo. Andei pelo Oriente e pelo Ocidente. Pude ver a Mesquita Azul tilintando na minha telinha. E sem querer entrei no www.whitehouse.com, e ao invés de ver a cara do Bush, acessei um site prá lá de pornográfico. Este é o sonho americano. O país governado por putas seria algo bem mais lógico.

Mas não estava interessado em procurar a verdadeira Casa Branca. Queria dar uma volta ao mundo em 800 clicks. Não precisaria gastar com passagens, hotéis e comida. Aliás, as cervejas geladas foram a minha única despesa. Nem precisei de patrocínio para implementar minha jornada aventureira. Bebi mais.. fumei as mazelas da vida. E cheguei em terras virgens. Será que poderemos invadir a lua digital. Levar as nossas bandeiras.jpg para o centro das crateras. Estou no mundo da lua.

Acordei de vez!! A luz incomoda pela manhã. Quem não tem colírio usa óculos escuros. Apertei o passo. Estava atrasado para o trabalho. Tinha que correr para chegar. O metro não espera o retardatário, nem tampouco, o patrão gosta de encorajar internautas perdidos na noite.

Banho tomado. Cara nova por trás das lentes escuras. Bom dia meus amigos, bom dia meus inimigos. Eu chego lá. Vou rodar a baiana, mas vou encontrar uma saída digna para esta situação.

O dia continua. Atendo aos telefones. Ligo para um monte de pessoas para saber se querem comprar um belo jazigo no cemitério da esquina, ou para pedir uma doação para a fundação do bem estar do chefe, ou ainda, para tentar vender assinaturas de jornais e revistas. Invado as casas das pessoas com minhas palavras cínicas. Muitos me detestam... mas ninguém me odeia tanto com eu mesmo. Eu sou Gato Bandini. Nasci para ser um escritor.

Continuo com o ouvido e a boca no telefone. Mas minha cabeça viaja pelos lugares que estive pela noite. E não vejo a hora de poder entrar numa nova viagem.

Final de expediente. Corro para o metrô. Back Home. Ligo meus sensores. Computador alerta. Cerveja na geladeira. Todos a postos. Minha viagem vai recomeçar.