A Sobrevivência como Paixão

A satisfação de sobreviver, que é uma espécie de prazer, pode transformar-se numa paixão perigosa e insaciável. Ela cresce em função das oportunidades. Quanto maior o amontoado de mortos em meio aos quais, vivo, ergue-se o sobrevivente; quanto maior a freqüência com que ele experimenta tais amontoados, tanto mais vigorosa e impreterível tornar-se-á sua necessidade deles. As carreiras de heróis e mercenários confirmam que uma espécie de vício tem origem aí, um vício para o qual já não há remédio. A explicação habitual que se dá para tanto afirma que tais homens só são capazes ainda de respirar em meio ao perigo; que toda existência desprovida de perigos ser-lhes-ia triste e insípida; e que não seriam mais capazes de extrair prazer algum de uma vida pacífica. Não se deve subestimar a atração exercida pelo perigo. O que se esquece, porém, é que essa gente não parte sozinha para suas aventuras, mas faz-se acompanhar de outras pessoas as quais sucubem ao perigo”.

“O que esses homens realmente precisam, aquilo de que não mais podem prescindir, é do sempre renovado prazer de sobreviver. O que ocorre, porém, não é que, para a satisfação desse prazer, se necessite sempre expor-se a si próprio ao perigo. Ninguém é capaz de, sozinho, matar em número suficiente. Nos campos de batalha, inúmeros são aqueles que agem com esse propósito, e se se é aquele que lhes dá as ordens, que lhes controla os movimentos, se a batalha é o resultado da decisão mais pessoal, então esse que a toma poderá apoderar-se também por completo de seu resultado, pelo qual é responsável, e da totalidade dos cadáveres. Não é à toa que o marechal-de-campo ostenta esse seu imponente título. Ele ordena: manda sua gente avançar contra o inimigo, rumo à morte. Quando vencem, todo o campo repleto de mortos pertence a ele. Uns morreram por ele, outros contra ele. De vitória em vitória, sobrevive-lhes a todos. Os triunfos que então celebra expressam com a máxima precisão aquilo que ele buscava. Sua importância é medida em função do número de mortos. Ridículo é o triunfo se o inimigo entregou-se sem verdadeiramente lutar, se apenas uns poucos mortos encontram-se reunidos. Mas glorioso se o inimigo defendeu-se valentemente, se a vitória foi conquistada com dificuldade, custando um grande número de vítimas.